Noticias

Dias mulheres virão!

As centenas de milhares de mulheres que se manifestaram no 8 de março, em todas as partes do globo, nas grandes e menores cidades, em multidões ou pequenos grupos, são apenas a parte visível da forç.

Por: Carla Batista*. Originalmente publicado aqui.

Não se iluda, não se engane! As centenas de milhares de mulheres que se manifestaram no 8 de março, em todas as partes do globo, nas grandes e menores cidades, em multidões ou pequenos grupos, são apenas a parte visível da força que expiram esses movimentos revolucionários. O trabalho de auto-organização, permanente, passa despercebido. Começa antes e continua após os atos públicos: debates, assembléias, oficinas de formação, de troca de experiências, as conquistas que são feitas dentro de casa, a produção acadêmica e literária, etc, dão asas ao que foi visto nas ruas. São cada vez  mais as que, como diria bell hooks, trabalham “para compartilhar a alegria libertadora que a luta feminista traz para a nossa vida”.

Em Pernambuco não foi diferente. Mais uma vez o centro do Recife foi invadido pela onda de manifestantes! E, até lá do outro extremo, do Sertão, vieram integrantes do Fórum de Mulheres do Araripe (FMA), que existe desde 2002 e articula 11 municípios. Gésia Cristina, agente comunitária de saúde em Ouricuri, uma das coordenadoras do FMA que entrou para a militância em 1999, diz:

“estamos a 680 Km da capital e somos  mulheres do campo e da cidade que se reúnem para dialogar sobre as pautas e frentes de lutas do movimento feminista e traçarmos juntas nossas estratégias. Ao longo dos anos o FMA tem mobilizado, construído e realizado diversas atividades de enfrentamento às violências e contra esse sistema patriarcal que oprime e mata tantas de nós. A possibilidade de estarmos juntas nas ruas, reafirmando nossa resistência, com a força e a estética feminista, pra nós aqui do Sertão tão distante, fortalece enquanto movimento e nos reanima para lutar sabendo que não estamos sós. Somos muitas e estamos juntas!”.

Às manifestações se seguiram dois dias de encontro do Fórum de Mulheres de Pernambuco (FMPE) com debates sobre a atual conjuntura política, o impacto na vida das mulheres e como organizar as lutas neste contexto. Contou com cerca de 250 participantes, todas as regiões do estado presentes. Para Maria Dolores, da coordenação do Coletivo Mulher Vida, organização que trabalha no enfrentamento da violência doméstica e sexual, o

“Encontrão é acolhida, troca de vivências individuais e da participação política feminista de mulheres do Sertão ao Cais. Precisamos nos fortalecer a cada dia para enfrentar o recrudescimento do racismo, do machismo, da misoginia, apregoados aos 4 cantos desde o golpe de 2016. Precisamos resgatar o sistema democrático, os nossos direitos e evitar o desmonte vertiginoso das políticas públicas, tão caras às nossas vidas”.

Eliane Nascimento, que começou a sua militância aos 12 anos e hoje é professora, integrante da coordenação da Articulação de Mulheres da Mata Sul e do FMPE afirmou ainda que

“aqui na Zona da Mata o movimento está buscando forças políticas para lutar contra essa situação adversa que a cada dia vem prejudicando mais a vida de nós mulheres. Estaremos realizando dia 28 de março, em Palmares, a III Plenária das Mulheres. Pretendemos conversar com cerca de 100 mulheres sobre a reforma da previdência, violência contra a mulher e delegacia especializada para a Zona da Mata”.

Em Caruaru, no dia 12, o Observatório dos Movimentos Sociais da UFPE, com o apoio da Associação dos Docentes (ADUFEPE) e do Movimento dos Sem Terra (MST),  foi realizado o evento “Somos todas Marielle!”. Em pauta também os retrocessos impostos pela atual conjuntura conservadora, o aumento do número de feminicídios e a reforma da previdência. Integrantes da Marcha Mundial de Mulheres entraram na sala lotada entoando “seguiremos em marcha até que todas estejam livres”. O evento antecedeu a uma grande manifestação que tomou as ruas da cidade, marcando um ano do assassinato de Marielle Franco. Foi uma das inúmeras manifestações que aconteceram não apenas no Brasil**. Identificar os seus assassinos não foi ou será suficiente para fazer calar vozes que insurgiram de todos os cantos do mundo. O que começou no carnaval, seguiu pelo 8 de março e no aniversário de sua morte: Marielle e o tudo o que ela representa está viva/o! Queremos saber quem mandou e porque porque mandou matá-la.

Ato 14/03

As mulheres com sua ousadia, poesia, mística, ocuparam as ruas ontem. E perguntaram quem mandou matar Marielle, e por que? Fomos as ruas denunciar todas as formas de violência e essa reforma da previdência que é uma injustiça a todas as trabalhadoras. Lutaremos incansavelmente! Seguiremos em Marcha até que todas sejamos livres. Marcha Mundial das Mulheres – Agreste #EmBlocoResistimos #8deMarço #14DeMarço #MulheresContraBolsonaro#8M #MariellePresente #Caruaru

Posted by Marcha Mundial das Mulheres – Agreste on Friday, March 15, 2019

Marcha Mundial de Mulheres do Agreste de Pernambuco

Mas, aonde eu gostaria muito de ter estado presente, no dia 13 de março, era na ocupação da Fazenda Don Inácio de propriedade do violentador João de Deus, em Anápolis/GO. Chegar junto com as bravas mulheres do MST e do Movimento Camponês Popular (MCP).  A Jornada de Luta das mulheres camponesas mobilizou cerca de 30 mil mulheres em 22 estados do país. Muito mais poderia ser destacado.

No mês de março, há muito que o dia 8 deixou de ser o único dia das mulheres. Para elas, todos os dias são seus. E são dias de luta!

______________________

**Das que pude acompanhar: Bolonha e Milão; Londres; Buenos Aires; Montreal; Berlim; Sydney e Melbourne; Coimbra e Lisboa; Bogotá, Madri e Barcelona; nos EUA: NY, New Jersey, Boston, Massachusetts, Los Angeles, Oakland, Santa Cruz, Washington…

*Carla Gisele Batista é historiadora, pesquisadora, educadora e feminista desde a década de 1990. Graduou-se em Licenciatura em História pela Universidade Federal de Pernambuco (1992) e fez mestrado em Estudos Interdisciplinares Sobre Mulheres, Gênero e Feminismo pela Universidade Federal da Bahia (2012). Atuou profissionalmente na organização SOS Corpo Instituto Feminista para a Democracia (1993 a 2009), como assessora da Secretaria Estadual de Política para Mulheres do estado da Bahia (2013) e como instrutora do Conselho dos Direitos das Mulheres de Cachoeira do Sul/RS (2015). Como militante, integrou as coordenações do Fórum de Mulheres de Pernambuco, da Articulação de Mulheres Brasileiras e da Articulación Feminista Marcosur. Integrou também o Comitê Latino Americano e do Caribe de Defesa dos Direitos das Mulheres (Cladem/Brasil). Já publicou textos em veículos como Justificando, Correio da Bahia, O Povo (de Cachoeira do Sul).