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1ª Marcha das Mulheres Indígenas

Indígenas, rurais, com apoio de outros movimentos de mulheres e feministas, em manifestação.

Por: Carla Gisele Batista*. Originalmente publicado aqui.

Dados do INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) mostram que o desmatamento da Amazônia, só em junho de 2019, subiu 88% em relação ao mesmo mês do ano passado. A área equivale a 4 cidades do Recife. Nos últimos dias garimpeiros invadiram aldeia e mataram o líder indígena Emyra Wajãpi. Tiveram sua ação respaldada pela autoridade máxima do país, que disse não ter havido indício de que Emyra fora realmente assassinado. Nada mais, nada menos! Declarações que se somam a um projeto de destruição e morte. Nada a mais, tudo a menos!

Neste contexto, que se agrava a cada dia, as mulheres vão novamente às ruas, num processo que vem se organizando e estabelecendo alianças há meses. A 1ª Marcha das Mulheres Indígenas acontece neste 2019 junto à Marcha das Margaridas. Contam com o apoio, na construção e na presença, de diversos movimentos de mulheres e feministas de todo o país.

Segundo Maria Leonice, coordenadora da Associação das Guerreiras Indígenas de Rondônia (AGIR), está acontecendo um importante envolvimento e mobilização nacional. “No momento atual, o governo brasileiro vem mostrando que não temos importância nenhuma para o planeta. A floresta não tem importância. Veja o nível de desmatamento, a investida do agronegócio… E, como mulheres indígenas, estamos ligadas ao meio ambiente e estamos lutando pela nossa sobrevivência”. Ela reforça e denuncia: “os movimentos que defendem seus territórios e as florestas, de indígenas e rurais, estão sendo assassinados. Por isso uma aliança com a Marcha das Margaridas: queremos mostrar que, apesar de sermos discriminadas no Brasil, temos causas comuns e estamos unidas nestas mesmas causas”.  Elas terão um longo caminho até chegar ao seu destino. Para isso solicitam apoio.

Em maio foi lançado em Berlim um mapeamento coordenado pela pesquisadora Larissa Mies Bombard, do Laboratório de Geografia Agrária da USP, sobre o nível de envenenamento de alimentos no Brasil. O elevado índice de resíduos agrotóxicos permitidos no país: nos alimentos, na água potável, contaminando o solo, provoca doenças e mata pessoas.  E como temos acompanhado, a liberação deste envenenamento está ocorrendo de forma indiscriminada e irresponsável. A defesa das florestas, da demarcação das terras indígenas, assim como a defesa da reforma agrária, da agricultura familiar, da agroecologia, são pautas que estão relacionadas, inadiáveis para todas as pessoas que lutam pelo direito à vida.

Dorinha, que é cacique Pankara em Pernambuco, conta que no estado cada povo tem a sua organização, de acordo com a sua realidade. A das mulheres se dá, especialmente, em torno da questão territorial, mas discutem também violência contra as mulheres e políticas públicas. “Estamos unidas para combater os retrocessos do desgoverno que atingem em particular as mulheres. Estivemos com muita força no Acampamento Terra Livre (abril) e também faremos o acampamento indígena no período da Marcha das Margaridas”. Ela destaca a importância de união nesta conjuntura, para “nos fortalecer, na diversidade, para alcançarmos nossos objetivos. Caminhamos junto com os nossos companheiros nas lutas pela terra, saúde e educação. Ninguém solta a mão de ninguém, e a luta continua!”.

Não localizei a adesão e apoio explícitos, de forma significativa, de companheiros de movimentos sociais mistos, sindicatos urbanos, setores de esquerda que têm bandeiras comuns. Este será um daqueles momentos que farão a historia das lutas no nosso país. O sentido político do seu fortalecimento frente às demandas do momento deveria ser um estímulo para as alianças, ainda que fossem apenas contingentes.

O Atlas: Geografia do uso dos agrotóxicos no Brasil e Conexões com a União Europeia, de Larissa Mies Bombardi – Laboratório de Geografia Agrária da FFLCH da USP. SP, 2017, pode ser acessado aqui.

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*Carla Gisele Batista é historiadora, pesquisadora, educadora e feminista desde a década de 1990. Graduou-se em Licenciatura em História pela Universidade Federal de Pernambuco (1992) e fez mestrado em Estudos Interdisciplinares Sobre Mulheres, Gênero e Feminismo pela Universidade Federal da Bahia (2012). Atuou profissionalmente na organização SOS Corpo Instituto Feminista para a Democracia (1993 a 2009), como assessora da Secretaria Estadual de Política para Mulheres do estado da Bahia (2013) e como instrutora do Conselho dos Direitos das Mulheres de Cachoeira do Sul/RS (2015). Como militante, integrou as coordenações do Fórum de Mulheres de Pernambuco, da Articulação de Mulheres Brasileiras e da Articulación Feminista Marcosur. Integrou também o Comitê Latino Americano e do Caribe de Defesa dos Direitos das Mulheres (Cladem/Brasil). Já publicou textos em veículos como Justificando, Correio da Bahia, O Povo (de Cachoeira do Sul).

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